quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Back to 2012

Em 2012, frequentava o 2º ano de Enfermagem quando, a meio de uma noite, senti palpitações com maior intensidade (já sentia esporadicamente) bem como uma dor tipo opressiva no peito. Liguei para a Saúde 24. Fizeram-me várias questões e encaminhara-me para o meu hospital de referência onde me atribuíram uma pulseira amarela. Esperei durante 6 horas numa sala com imensas pessoas (não me recordo da altura do ano mas a urgência estava caótica). Durante o tempo de espera mantinha-me com frequência cardíaca aumentada, dor no peito e alguma ansiedade (mas nada como no presente, conseguindo estar tranquilamente naquela sala). 
Quando fui finalmente atendida questionaram-me se haveria possibilidade de estar grávida e avaliaram a minha tensão arterial que estava alterada e a frequência cardíaca mantinha-se nos 140 batimentos por minuto. Sem fazer qualquer tipo de análises, a médica prescreveu-me diazepam 10mg 2x/dia (indicação terapêutica: ansiedade, insónia, relaxante muscular ou pré-anestésico) e bisoprolol 5mg 1x/dia (indicação terapêutica: afeta a resposta do organismo a determinados impulsos nervosos, especialmente no coração diminuindo a frequência cardíaca). Tomei um de cada naquela altura, pediu-me que esperasse 20' para ser reavaliada e depois disse-me que poderia tratar-se de um problema de tiróide e que deveria consultar o meu médico de família. Na altura nem questionei mas... como é que se medica uma pessoa com um beta bloqueante e um ansiolítico, levanta uma hipótese diagnóstica mas nem umas análises pede? 
Durante uma semana ainda cumpri a terapêutica mas rapidamente abandonei pois em época de exames sentia uma sonolência tal que não me permitia estudar. 
Pouco tempo depois fui ao Centro de Saúde e tive uma consulta com a minha médica de família. Fiz análises para avaliar a função tiroideia e... estava péssima (péssima o suficiente para a médica ter pedido análises de novo para confirmação de resultados). 
Após alguns exames, diagnosticaram-me Tiroidite de Hashimotodoença auto-imune caracterizada por uma inflamação da tiróide que leva inicialmente a hipertiroidismo seguido frequentemente de hipotiroidismo. O episódio que me levou à urgência foi-me então explicado pela médica como sendo uma condição caracterizada por hipertoidismo transitório mas que, à data das análises, já teria passado a hipotiroidismo (surge quando a tiróide não produz hormonas suficientes para o funcionamento normal do organismo). 
A manifestação clínica desta doença é gradual pelo que o diagnóstico é muitas vezes tardio. Os sintomas incluem: cansaço, pele seca, queda e cabelo quebradiço, unhas quebradiças, aumento de peso, edemas generalizados, intolerância ao frio/calor, irritabilidade, alterações de memória, depressão, irregularidades menstruais, obstipação, ansiedade ... Há muito tempo que alguns destes sintomas faziam parte do meu dia-a-dia mas desvalorizei-os. Iniciei medicação para reposição hormonal e as análises melhoraram rapidamente. 
Tudo isto para vos explicar que foi aqui que surgiram as minhas crises de ansiedade que, mesmo após controlo da tiróide, "herdei". A isto seguiram-se sessões no Psiquiatra, dietas e mais dietas  e meses de antidepressivos (que já não tomo atualmente mas que, às vezes, sinto que deveria retomar) e ansiolíticos em SOS.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Agorafobia: o que é, o que sinto e como lido

Parece que foi ontem que aqui voltei mas... já passaram uns meses desde que me comprometi a voltar com regularidade: "antes tarde que nunca" e, por isso mesmo, cá estou eu novamente. 
Estamos em Novembro e já começa a cheirar a Natal. Não sendo a época do ano que mais aprecio, confesso que comprar presentes para as pessoas que mais gosto me agrada bastante mas faço-o várias vezes durante o ano, sem necessariamente esperar pelo Natal (esta história do consumismo é um dos aspetos que me faz não ser fanática por esta época). Claro está que os centros comerciais estão completamente lotados e para uma pessoa com agorafobia (como vos havia confessado no post anterior) tal facto se torna num obstáculo. 

O que é agorafobia?
A agorafobia trata-se de uma perturbação de ansiedade que, em situações mais extremas, podem conduzir a ataques de pânico e a que a pessoa evite a sua exposição a algo que, de forma antecipada, pressentem que possam fazer experimentar essas sensações negativas uma vez mais. 

O que sinto?
As sensações podem variar de pessoa para pessoa. Eu sinto: palpitações, dificuldade em respirar, medo de estar a perder o controlo e de morrer, tremores, suores, tonturas, visão turva, inquietação, taquicardia. 

Em situações me sinto ansiosa?
No meu caso específico, sinto-me desconfortável em grandes superfícies fechadas com muitas pessoas sejam estádios, concertos, certos comerciais; transportes públicos (especialmente em hora de ponta!); filas de supermercado, lojas; locais muitos quentes; sítios que não conheça bem e que não saiba encontrar saídas rapidamente (parece estranho mas, quando entro no local deste tipo muitas vezes dou por mim a pensar "e se me sentir mal? Onde será a saída mais rápida para o exterior?"); restaurantes barulhentos e com muita afluência; exposições orais (sendo eu enfermeira posso dar o exemplo das passagens de turno, apresentações orais de trabalhos, ...), ...

Se deixo de fazer compras e ir a este tipo de superfícies? Não! Lido com esta situação há 6 anos e fui criando estratégias de coping (algumas um pouco mais evitantes que propriamente de coping...): 

# vou a centros comerciais ou supermercados pouco depois de abrirem ou a umas horas de fechar (a afluência é menor);
# levo uma lista de tudo o que pretendo ver e sei, à partida, a que lojas quero ir;
# não costumo frequentar esses sítios aos fins-de-semana ou feriados, excepto em casos de extrema necessidade ou para ir ao cinema (nas sessões do fim do dia, claro está);
# vou quase sempre ao mesmo centro comercial por conhecê-lo bastante bem (saídas e afins);
# em épocas como o Natal, faço as minhas compras com vários meses de antecedência;
# vou quase sempre acompanhada e, caso contrário, certifico-me se tenho bateria no telemóvel para poder falar com alguém se necessário (funciona como distração dos stressores);
# faço algumas comprar online;
# raramente experimento roupas nos provadores antes de comprar (prefiro voltar para trocar uma vez que os provadores não se tornam muito confortáveis para mim por me sentir fechada);
# tirei a carta e raramente uso transportes públicos, mas quando o faço, tento evitar a hora de ponta sentindo-se, nesse caso, mais desconfortável no metro, ...

Quem lê esta lista pensa claramente que sou "psicótica" ou que não sou feliz mas a verdade é que com estas (e outras) estratégias consigo ter uma vida quase "normal". Não posso dizer que não me sinto limitada em algumas das minhas atividades de vida diárias mas assumindo que tenho um problema apenas tento lidar com o mesmo. Torna-se mais difícil quando as pessoas com quem me relaciono não compreendem a minha condição e têm algumas atitudes que me deixam desconfortável: não combinam programas comigo com tanta frequência, não entendem o meu problema ou simplesmente deixam de manifestar algum tipo de interesse porque sentem que a sua própria vida/rotina pode ser alterada por estarem com uma pessoa que não consegue ir a um centro comercial a qualquer altura do dia, assistir a um concerto ou um jogo de futebol, ou até mesmo esperar numa fila de supermercado. Não escondo o que sinto nem esta situação às pessoas com quem tenho maior proximidade pois acaba por afetar a minha disposição, disponibilidade e naturalidade face a determinadas situações. 
Tranquiliza-me saber que os meus amigos mais próximos e familiares me entendem e que, por vezes, até já preferem substituir uma ida a um restaurante barulhento e confuso por um bom programa no aconchego da minha pequena casa. Não quero com isto dizer que não ceda... Também vou a restaurantes, cinemas, centros comerciais, festas como qualquer pessoa, simplesmente há alguns aspetos a ter em conta que quase sempre consigo gerir mas que também conto com a compreensão de quem me acompanha (e que, quase sempre, têm). Em casos mais extremos (e sabendo de antemão que não deve ser o passo nº 1 para o controlo dos meus sintomas) tenho sempre por perto o meu SOS que, não me deixando sonolenta e disfuncional, me ajuda a suportar com mais leveza os stressores que acompanham esses tais sítios/situações.
Com isto, quero apenas dizer-vos que tenho vindo a aprender a tentar "não ter medo de ter medo" - a definição que quase sempre é dada a este transtorno que afeta mais pessoas do que se pensa.
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