Parece que foi ontem que aqui voltei mas... já passaram uns meses desde que me comprometi a voltar com regularidade: "antes tarde que nunca" e, por isso mesmo, cá estou eu novamente.
Estamos em Novembro e já começa a cheirar a Natal. Não sendo a época do ano que mais aprecio, confesso que comprar presentes para as pessoas que mais gosto me agrada bastante mas faço-o várias vezes durante o ano, sem necessariamente esperar pelo Natal (esta história do consumismo é um dos aspetos que me faz não ser fanática por esta época). Claro está que os centros comerciais estão completamente lotados e para uma pessoa com agorafobia (como vos havia confessado no post anterior) tal facto se torna num obstáculo.
O que é agorafobia?
A agorafobia trata-se de uma perturbação de ansiedade que, em situações mais extremas, podem conduzir a ataques de pânico e a que a pessoa evite a sua exposição a algo que, de forma antecipada, pressentem que possam fazer experimentar essas sensações negativas uma vez mais.
O que sinto?
As sensações podem variar de pessoa para pessoa. Eu sinto: palpitações, dificuldade em respirar, medo de estar a perder o controlo e de morrer, tremores, suores, tonturas, visão turva, inquietação, taquicardia.
Em situações me sinto ansiosa?
No meu caso específico, sinto-me desconfortável em grandes superfícies fechadas com muitas pessoas sejam estádios, concertos, certos comerciais; transportes públicos (especialmente em hora de ponta!); filas de supermercado, lojas; locais muitos quentes; sítios que não conheça bem e que não saiba encontrar saídas rapidamente (parece estranho mas, quando entro no local deste tipo muitas vezes dou por mim a pensar "e se me sentir mal? Onde será a saída mais rápida para o exterior?"); restaurantes barulhentos e com muita afluência; exposições orais (sendo eu enfermeira posso dar o exemplo das passagens de turno, apresentações orais de trabalhos, ...), ...
Se deixo de fazer compras e ir a este tipo de superfícies? Não! Lido com esta situação há 6 anos e fui criando estratégias de coping (algumas um pouco mais evitantes que propriamente de coping...):
# vou a centros comerciais ou supermercados pouco depois de abrirem ou a umas horas de fechar (a afluência é menor);
# levo uma lista de tudo o que pretendo ver e sei, à partida, a que lojas quero ir;
# não costumo frequentar esses sítios aos fins-de-semana ou feriados, excepto em casos de extrema necessidade ou para ir ao cinema (nas sessões do fim do dia, claro está);
# vou quase sempre ao mesmo centro comercial por conhecê-lo bastante bem (saídas e afins);
# em épocas como o Natal, faço as minhas compras com vários meses de antecedência;
# vou quase sempre acompanhada e, caso contrário, certifico-me se tenho bateria no telemóvel para poder falar com alguém se necessário (funciona como distração dos stressores);
# faço algumas comprar online;
# raramente experimento roupas nos provadores antes de comprar (prefiro voltar para trocar uma vez que os provadores não se tornam muito confortáveis para mim por me sentir fechada);
# tirei a carta e raramente uso transportes públicos, mas quando o faço, tento evitar a hora de ponta sentindo-se, nesse caso, mais desconfortável no metro, ...
Quem lê esta lista pensa claramente que sou "psicótica" ou que não sou feliz mas a verdade é que com estas (e outras) estratégias consigo ter uma vida quase "normal". Não posso dizer que não me sinto limitada em algumas das minhas atividades de vida diárias mas assumindo que tenho um problema apenas tento lidar com o mesmo. Torna-se mais difícil quando as pessoas com quem me relaciono não compreendem a minha condição e têm algumas atitudes que me deixam desconfortável: não combinam programas comigo com tanta frequência, não entendem o meu problema ou simplesmente deixam de manifestar algum tipo de interesse porque sentem que a sua própria vida/rotina pode ser alterada por estarem com uma pessoa que não consegue ir a um centro comercial a qualquer altura do dia, assistir a um concerto ou um jogo de futebol, ou até mesmo esperar numa fila de supermercado. Não escondo o que sinto nem esta situação às pessoas com quem tenho maior proximidade pois acaba por afetar a minha disposição, disponibilidade e naturalidade face a determinadas situações.
Tranquiliza-me saber que os meus amigos mais próximos e familiares me entendem e que, por vezes, até já preferem substituir uma ida a um restaurante barulhento e confuso por um bom programa no aconchego da minha pequena casa. Não quero com isto dizer que não ceda... Também vou a restaurantes, cinemas, centros comerciais, festas como qualquer pessoa, simplesmente há alguns aspetos a ter em conta que quase sempre consigo gerir mas que também conto com a compreensão de quem me acompanha (e que, quase sempre, têm). Em casos mais extremos (e sabendo de antemão que não deve ser o passo nº 1 para o controlo dos meus sintomas) tenho sempre por perto o meu SOS que, não me deixando sonolenta e disfuncional, me ajuda a suportar com mais leveza os stressores que acompanham esses tais sítios/situações.
Com isto, quero apenas dizer-vos que tenho vindo a aprender a tentar "não ter medo de ter medo" - a definição que quase sempre é dada a este transtorno que afeta mais pessoas do que se pensa.
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